quinta-feira, 3 de abril de 2014

Concreto



O concreto não sofre, não chora, não grita. Mas isso é um fato? Segundo o sítio http://www.dicio.com.br o significado de concreto é:

Adj. Que existe de forma material. Que exprime alguma coisa de real, de positivo: obter vantagens concretas. Que tem o sentido das realidades precisas. Gramática Diz-se de um termo que designa um ser ou um objeto que pode ser percebido pelos sentidos. Mistura de água, areia, cimento, pedra britada, com estrutura de vergalhão de ferro, e usada em obra de alvenaria; cimento armado.

Acredito que, independe do ponto de vista, o concreto sofre. Pois, como a citação nos diz, ele exprime alguma coisa de real, que pode ser percebido pelos sentidos. Faz-se voz para as bocas que foram silenciadas, ora por um sistema autoritário que não permite suas manifestações livres, ora por desconhecimento da sua liberdade de apropriação de espaços para manifestação. Também se faz expressão do trabalho humano, da nossa capacidade de construir.
Mas a questão é o que de subjetivo há impregnado no concreto, a emoção que ele representa. O significado que cada um dá. Os muros são muito mais do que um simples alinhar de peças de barro cozido, empilhadas umas sobre as outras, entremeadas por uma mistura de areia/cimento/água, recobertas por uma mistura química com densidade oleosa, colorida artificialmente. Eles carregam a subjetividade daqueles que o fizeram, dos que ali passaram parte de seus dias de forma feliz e prazerosa ou triste e dolorosa, dos que simplesmente por ali passam e também daqueles que o usam como forma de expressão ou opressão. Entendo que é exatamente isso que foi ferido com o episódio da Escola Castelo Brando em Jaguarão: O sentimento que temos pelo lugar. Isso se torna muitas vezes, de forma equivocada, o determinante para nossas opiniões, ocultando assim, a real intenção do fato. Pelo que entendo é um grito de liberdade, que busca trazer a tona uma realidade que por muito tempo nos aterrorizou. E que, de forma muito ardilosa, ronda a sociedade atual.
Cabe também outra ponderação: Se o muro da escola não é espaço para a manifestação (grafite, pixo ou o que for) onde é? Quando será discutido isso? Quando haverá espaços para que possamos nos manifestar? Quando nos será permitido tomar posse dos muros das cidades em que vivemos? Discutir não é criar o estigma de certo ou errado, é sim instrumentalizar o sujeito de tal forma a que ele possa ponderar sobre o que vê a sua volta e, por si próprio, perceber as situações que o rodeiam, capacitando-o assim construir suas perspectivas, suas ideias. Inicia-se um processo de abertura, mesmo que tímida, a uma discussão que se propõem a rever nosso papel como ser histórico. Não podemos nos deixar tomar por uma cega sede de mudança, que por muitas vezes se transmuta em vingança, sem levar em consideração o outro e sua subjetividade, atropela sentimentos e fragiliza ligações.

Entendo que devemos problematizar e até mesmo, se necessário, lutar pelas nossas demandas. Contudo não podemos ferir o que há de mais íntimo nas pessoas. Devemos buscar espaços e as autoridades, que devem ouvir e concretizar nossas necessidades, para uma discussão consistente e embasada em argumentos. Já basta dos “achismos” que tanto nos rodeiam.


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