As janelas que vejo são como luminárias,
aquelas que alguém teima em esquecer ligadas:
Iluminam quando não se quer mais claridade,
mas, com sua origem funcional, mostram o
mundo lá fora...
Realidade que não se quer ver:
Garotos fazendo malabarismo, vendendo balas e
corpos;
Meninas e meninos que se fazem mulheres,
ganhando alguns trocados e perdendo a
dignidade;
As palavras fogem, os sentimentos explodem.
Na terra em que poucos se olham quase ninguém
se vê.
Nessa terra de tantas diferenças, o normal é
ser estranho.
Nessa complexidade que existe é tudo tão
simples:
Há uma coletividade unitária,
em que cada um é um todo e o todo é nenhum.
Lá vem a moça do algodão doce.
Mal sabe ela que faz parte de algo que muitas
vezes não existe.
A criança no ônibus ao lado:
bochechas rosadas, boca sorridente,
muitos dentes, no colo de sua mãe,
contando feijões coloridos.
Contrasta com a que vejo após o ônibus
arrancar:
bochechas encardidas, boca com poucos dentes,
sentada na calçada contando moedas escuras de
5 centavos.
Resta-me duas possibilidades:
Descer no próximo ponto e lutar contra isso
ou fechar a cortina, disfarçar e me perder no
nada existencial
que nos devora.
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