sábado, 31 de maio de 2014

Janelas da alma


Pelo canto do teu olho vejo tua alegria,
Também vejo tua tristeza.
Pelo canto do teu olho vejo tua jovialidade,
Também vejo tua maturidade.
Pelo canto do teu olho vejo tua atenção,
Também vejo tua distração...
Ah... As janelas sempre nos traindo.
Mostram aquilo que não queremos ver
Ou aquilo que não queremos mostrar...
Não sei bem a quem devo, mas mesmo assim o faço:
Agradeço por não sofrer dessa cegueira
Que assola nosso tempo.
Tu me olhas, mas sou eu quem te vejo.


sábado, 24 de maio de 2014

Ménage à trois


Entorpeço-me de vinho e outras vezes de pensamento...
Gosto desse ménage à trois entre a Solidão, Vinho e eu.
Somos tão prazerosos e, ao mesmo tempo, tão odiosos...
Dizemos o que nem nós queremos ouvir.
Atestamos, com tinta, nossa luxúria e insanidade...
Justificamos, com o néctar de Baco, nossa personalidade:
Etílica, pseudo poética, perversa, descabida e imoral.
Todo entendimento se torna confusão...
Ora gargalhadas retumbantes, ora lágrimas soluçantes.
Considere tudo que eu disser, mas o que será determinante
é  conseguires entender o meu silêncio.
Mesmo amordaçado, ele brada enlouquecidamente
dentro de minha sanidade...
Dizendo que não quer mais ninguém a minha volta...
À espera que alguém o escute, mas não o dê ouvido.
Isso tudo se traduz numa frase:
A soma de nós três juntos é igual a minha solidão.


terça-feira, 20 de maio de 2014

Apenas respirando... Sobrevivendo.


Palavras malditas, benditas, nunca vistas.
Nunca lidas, só pensadas, Nunca escritas.
Mas no íntimo de nós dois foram ditas...
Só no íntimo de nós dois foram ditas.

Você se prende na ilusão de que tudo está escrito.
Sempre fiz a minha vida, o meu rito.
Muitas vezes no silêncio ou no grito.
Tanto na calmaria ou no agito.
  
Enquanto isso a insônia me assola.
Sem você do meu lado, parece que a vida não decola.
A saudade de ti, a minha esperança degola...
Na saudade de ti, a minha esperança cai, se esfola.

Você deve estar por aí, perdida.
Na neblina de uma noite estrelada, dessa vida.
Buscando uma liberdade, minha querida.
Que não é essa que tens tão pretendida.

Talvez seja esse o nosso terrível segredo.
De nós dois juntos, temos medo.
Certamente nem eu e nem você está entendendo.
Na verdade nenhum sabe direito o que está fazendo.
Apenas respirando... Sobrevivendo.






segunda-feira, 12 de maio de 2014

Janela embaçada



É noite.
Sentado no quarto.
Esperando o tempo passar...
Olho pela janela:
Parte dela está respingada,
A outra embaçada.
Chove na capital.
Chuva mansa, calma e serena...
Só pra ajudar a compor a imagem,
Que já tem a melancolia e a saudade esboçadas.
Eu sei, o ideal é não aprender a lidar com a solidão.
Mas o que posso fazer?
Já fizemos um dueto...
Já fui seu partner...
Já dividimos o nada...
Eu sei meus sinais são confusos...
Mas hoje não,
amanhã será mais fácil de alguém me ajudar...
Talvez amanhã eu já saiba o que é...
Ainda é noite...
Ainda estou sentado no quarto...
Ainda espero o tempo passar...
Olho pela janela.


sábado, 10 de maio de 2014

Foi quando você se foi.


                E quando eu morrer pra você, siga em frente. Não existe nada mais deprimente, que morrer na praia. Quando você virar a cara, acredite querido, vou estar no paraíso queimando por dentro, rindo a toa e celebrando cada momento longe de você. Embriagar-me-ei até entorpecer os sentidos, e não sobrar mais um pingo de lembrança sua.
            Vou dançar até minhas pernas não aguentarem mais de dor, e cair por sobre a multidão em polvorosa com o êxtase causado pelo torpor de ilícitas alegrias indisponíveis no mercado, percorrendo de mão em mão, até chegar no lago do nada e despencar no frio calor do vazio, sentir cada gota de gelo da sua incompreensão me cortar cada milímetro de alma. Agora não me lembro se fui feliz com ou sem você, a tristeza me parece mais conveniente quando penso em nós. Nossa, ”Nós”, como se isso tivesse existido um dia, pelo que me lembro só existiu um “eu” tentando ser “nós” e “tu” fugindo de “tudo”. Acreditei que um dia te faria feliz, pois só assim eu teria sido feliz, mas vejo a vã possibilidade de um vago sorriso de canto, meio sem graça querendo dizer alguma coisa...
É... é vão mesmo, e inútil, e infrutífero, e ridículo. Enfim, anulei-me em prol d’uma razão maior, alheia a minha vontade, querendo ser tudo que não fosse nada, mas você não quis. Mas você me usou para tapar o buraco de alma que faltava no seu coração impuro, e me fez acreditar que eu era feliz com você, e olha que você conseguiu. Por um pequeno instante, mas conseguiu. Mas nada do que tentasse, não vai chegar perto de tudo que busco, que me espera antes da passagem, que me fortalece. Não querido, não são palavras vazias, eu não vou morrer na praia como você, eu não sou assim, acredite. Ainda vamos ser muitos felizes longe um do outro, os nossos caminhos só se cruzaram por acaso, e foi por querer que eles se desfizeram, mas não tem problema, hoje eu entendo o porquê. Mas prefiro deixar enterrado, nosso segredo mais ordinário, mais sórdido, e mais nosso. Não se preocupe, ele vai morrer comigo, nem Deus há de saber de nós.
E se um dia a gente se encontrar nas esquinas de qualquer mulher da vida, façamos como dois estranhos: sorriremos alegres, não felizes, alegres, passaremos um pelo outro, e sem olhar para trás maldiremos um ao outro com todo sentimento que ainda resta. Talvez assim tenhamos um pouco de paz dentro de um pouco de barulho. Talvez eu ainda te ame, mas nem se coçe tanto, é uma remota possibilidade de fracasso futuro. Mesmo que quiséssemos, o seu querer não quereria o meu, são dois quereres querendo distancia. Queira só ser feliz, o resto é invenção de gente apaixonada.

Almando Storck Junior


quinta-feira, 8 de maio de 2014

Cegos


Vejo meias ¾, vejo coturnos desarmados.
Sapatos, sandálias, sapatilhas e rasteirinhas.
Vejo vários tipos de saias,
Inclusive as que não parecem saias.
Vejo alargadores, penas, brincos, argolas, piercing’s,
E sei que há alguns que não vejo.
Vejo decotes, alcinhas, mangas curtas e longas,
Canoas e um ombro só.
Eu vejo gurias, meninas, mulheres, minas.
piriguetes, trocinhos, vadias, santas,
Elas que são eles, Amélias: desconstruídas e impostas,
Vejo todas em sua liberdade de ser o que quiserem.
Mas a pessoa ao meu lado no ônibus, não consegue ver nada disso.
Ela só consegue enxergar uma sociedade perdida, sem valores.
Mais um cego entre tantos que se apoiam numa bengala imaginária: valores. 
Que só servem para vender imagens distorcidas e contorcidas da realidade em que eles apenas sobrevivem.
Mas nós vivemos, nós vivemos...



quarta-feira, 7 de maio de 2014

Antônimos

Nem o novo e tampouco o velho conheci...
De um: nem o choro pude ouvir.
Do outro: muito tempo viveu ali.
A mim coube apenas os que dizem: com eles convivi.
E os dois me são anônimos, os dois são Antônios.

Eu também senti doer.
Pra resolver não tenho poder.
Tentar ajudar é o meu querer.
Mas volto a dizer:
Os dois me são anônimos, os dois são Antônios.

Algumas semelhanças eles têm.
Ao lembrar deles, a saudade vem.
Não conheci um e nem o outro também.
E essa é minha homenagem a quem.
São-me anônimos, os dois são Antônios.

P.S. Este texto não está completo, mas mesmo assim decidi publicá-lo. Senti que devia fazê-lo.

domingo, 4 de maio de 2014

Me faltou lucidez...

Acabo de ser acordado por alguém dizendo meu nome...
Baixinho, quase sussurrando ele.
Olho em volta, estou sozinho.
Foi tão claro... Foi tão real... Foi um sonho?
Sempre isso acontece, é meu inconsciente,
muita vezes febril/ridículo/ sabedor de coisas que não sei aceitar.
Estou aqui sentado, olhando a lua,
ainda tenho o gosto da bebida sem gelo...
Passeio pelos meus pensamentos e percebo
quanta gente se perde por causa do verso e da poesia...
Não por elas em si,
mas pelo fato de quem as usa por proveito próprio.
Palavras tão lindas, mas que quanto mais belas, mais vazias são.
Palavras rotas jogadas ao vento,
uma linda verborreia que as fazem esteticamente exuberantes,
mas que qualquer momento de lucidez as derruba...
Volto a dizer: a Tereza das Galinhas é que tinha razão... Em tudo.


sexta-feira, 2 de maio de 2014

Sexo...


Tive aquilo que não podia ter e isto ofendeu aos Deuses. 
Pensei que era o fogo, talvez a Sabedoria... Mas não foi nada disso. 
Poderia ter sido o fruto proibido ou ainda Excalibur retirada da pedra por mim. 
Posso ter profanado o templo e rasgado o selo que lacrava a prisão de Hades... 
Não!
Não foi nada disso... Apenas tive aquilo que não deveria ter.
Os sonhos que vejo não são meus e tampouco tem haver comigo. 
Não há espaço para meu retrato nessas paredes que me cercam. 
Talvez Sebastião me perdoe por ter atirado uma flecha em seu peito. 
Talvez ele me perdoe e permita que pise em terras por ele abençoadas.
O resto é ir, fazer coisas que me tragam felicidade. 
Talvez assim o buraco saia do monstro. 
E de tudo isso, o que sobra, é um resto de quase nada... 
E o nada já seria algo se realmente houvesse algo. 
A palavra ainda tem quatro letras, mas não é mais amor... 
Na verdade não precisa mais dele pra existir, basta o desejo. 
A palavra se transformou, ficou com gosto de resto...