É
estranha a sensação que sinto, pois, alguém que me era tão próxima, hoje me
causa estranheza.
Sua
presença não tem mais o sabor que tinha, seu perfume se tornou um odor fétido,
o qual me causa repulsa. Agora percebo ser esse o preçoo qual ela me dizia que pagaria um dia. Chegou, sorriu e me abraçou com a mesma falsidade de sempre,
contudo eu não sou o mesmo companheiro que junto dela, da Lua e do Sereno, fazia
como Pã: tumultuava o andar dos viajantes. Nós desfazíamos o trabalho realizado
por Morfeu: adormecer aos justos.
E
ela viu em mim outra pessoa. Seu beijo já não é mais doce, deixa um amargo que
permanece, não por minha vontade, mas pelo direito que lhe é devido. Este é o
valor por ela cobrado. Seu abraço, antes quente, lembrava as ninfas a correrem
junto a Zeus num flerte total de um Deus e os mortais. Não é mais assim, se
tornou frio, como o vento Minuano que sopra no rosto de Brau Nunes, nos contos
gauchescos. E ela percebeu que eu senti a diferença.
Fez-me
a promessa do consolo, que em seus braços encontraria o repouso e o descanso
dos velhos tempos. Não sou o mesmo.
Disse-lhe,
que dela só queria a companhia de sua irmã, a Saudade. Mas não por muito tempo.
Ela a quem tanto repudiei, era a única que podia me livrar dos braços de sua
fraterna. É interessante, pois uma não permanece na presença da outra. Se a
Saudade se faz presente é por que sentimos a falta de alguém e ao mesmo tempo
essa falta é a certeza da presença desse alguém. Se me permite um pequeno
devaneio, antes a maior presença que eu tinha era exatamente a ausência de
alguém que nem sabia se realmente existia e hoje não é mais assim, pois vejo
com grande alegria, que posso estar errado quanto a isso. A Solidão
é a total inexistência de alguém, a não ser ela e sua melancólica permanência.
Sinto ao mesmo tempo pesar e alegria em ser a Saudade quem está a me consolar.
Pesar por não ter quem eu quero ao meu lado e alegria na esperança da presença,
dela, no futuro. Aliás, já ia me esquecendo que junto a Saudade vem a
Esperança, pronta a fortalecer o espírito já tão castigado.
Saí,
na verdade fugi, na tentativa de esquecer o meu tormento, mas percebi que não
depende só de mim, a decisão que tomei já é fato, contudo a decisão que mais
espero não cabe a mim, mas vai influenciar as outras decisões que terei de
tomar. Nesse momento, ao escrever essas palavras, o Medo invade meu quarto,
pois percebo ao seu lado a Incerteza, com seu olhar e silêncio profundo, no
qual meus Pensamentos e Temores bradam de forma aterrorizante.
Mas
permaneço na espera, não sei por quanto tempo... Mas permaneço. Agora a
angustia sussurra em meu ouvido que hoje é apenas o primeiro dia, será que vou
ressuscitar no terceiro? Não sei.
Apenas
espero ouvir a Voz de um Anjo me dizendo com um sorriso, aquele, no rosto: Eu
sou sua. Já não sei mais se ele bate ou apanha... Sei que é meu o coração. Mas
ele ainda não pode bater em meu peito... Ainda não.
Jaguarão, 05/2010

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