terça-feira, 16 de fevereiro de 2021

Kama Sutra



Tenho sede do suor de teu corpo...

Anseio em perder meus olhos em tuas coxas.

De sentir teus pés em minhas costas...

De perceber o arrepio de tua pele.

Tua respiração ofegante...

Teu grito mudo...

Teu sorriso em meio a um gemido...

 

De mesmo já tendo mapeado tuas costas,

Medi-las do alto de tua nuca ao fim.

Minha destra o faz com habilidade.

Habilidade essa alcançada pela intimidade que se repete entre nós.

E a canhota, inquieta e voraz, demonstra a satisfação de nosso ritmo.

Minha palma sente todo teu calor.

 

Lembro de tuas pernas em meu peito...

Cruzadas como nossos caminhos, como nossos desejos.

Mão dadas, apertadas, demonstrando intensidade e tesão.

Já não se sabe mais onde um começa e o outro termina.

Desejo e calor...

 

Cama totalmente desfeita.

Lembranças acesas...

Desejos despertos...

A espera de que, juntos, palavras se tornem atos...

Para assim matar minha sede...

Para assim matar nosso desejo. 

Devaneio

 


Procurei por nós em minhas lembranças.

Acabo encontrando outro casal: Solidão e Silêncio.

Então escutei um sussurro...

Era o Silêncio. Dizendo coisas que eu não queria ouvir...

De mãos dadas, andando distraídos... Não me viram...

Não ainda. Mas eu os vi.

 

Busco passar escondido em meio à multidão que nos rodeia...

Enquanto caminho apressado, trago à tona o passado.

Exorcizo meus medos e anseios...

Juntos, se perdem sonhos e desejos.

Presos nesse emaranhado de sentimentos soltos.

Deformados, transformados, alterados, usurpados...

 

Minto pra mim mesmo, repetindo como um mantra:

Já não penso mais em nós. Já não penso mais em nós.

Já não penso mais em nós... Já não penso mais em nós?

Na verdade, não sei se em algum momento houve um nós.

Então escutei mais um sussurro...

Disfarço distração, mas já é tarde.

Tenho a impressão de que ouviu meus pensamentos.

Era a Solidão.

 

Sua voz inebriante, carregada de malícia e desdém...

Com um sorriso cínico, emoldurado por lábios vermelhos vivos.

Me viu. Me reconheceu. Caminhou em minha direção.

Tudo em nossa volta some...

Tua mão em meu rosto... Teus lábios nos meus...

Perco o ar, o rumo e a sensatez.

Perco a decência e o pudor...

O desejo inflama nosso falso momento...

Sim, falso momento.

Pois hoje sei que não passou de um simples devaneio...