quarta-feira, 27 de maio de 2020

30 Segundos


Pisamos na mesma quadra. Nos olhamos e nos vimos.
Sob a luz da manhã resplandece sua beleza.
Morena, cor de cuia, olhos astutos, à procura de algo.
Passada firme, mas na passarela urbana flutua.
Um sorriso lindo e iluminado, parecendo uma pintura...
Emoldurado por lábios vermelhos...
Carnudos e provocantes.
Mais do que uma troca de olhares, nos vimos...
Tocamos nossas almas.
Eu não sei o nome dela... Ela não sabe o meu.
Eu ia, ela vinha... Ela ia, eu vinha.
Lados opostos, mesma rua. Muita pressa.
Ficamos sem voz e sem nome...
Mas temos o melhor de nós:
O sorriso e o olhar um para o outro...
Sincero e gratuito...
Tudo isso no mesmo tempo que durou essa leitura...
Na eternidade de 30 segundos.


quarta-feira, 20 de maio de 2020

Placebo


Você me toma como um remédio,
na tentativa de obter a cura dessa realidade que te mata.
Talvez eu seja um tarja preta, que te ilude...
Parecendo que te controla, mas só disfarça tua realidade.
Mas não sei dizer ao certo o que sou:
Já fui cura de alguns males...
Já fui à origem desses males...
Hoje, pra esses males, eu sou placebo.
Não tenho culpa da minha existência,
mas me tomas porquê queres.




quarta-feira, 13 de maio de 2020

Esquizo


Das promessas de que fizemos juntos...
De que faríamos nossa alegria.
Num instante a lembrança da tua boca dizendo bom dia...
No outro ela se fazia dona de meu corpo;
Num instante tuas mãos me empurram, para que assim acordasse...
No outro rasgavam minhas costas, num calor mais que febril;
Num instante era aconchegante como uma manhã de primavera...
No outro quente como uma noite de verão;
Era intrigante e apaixonante tê-las, as duas...
Ao dispor de nosso intenso momento.
Ao pudor dávamos apenas o desrespeito.
Aquele que provém dos que nada temem, pois tem um ao outro.
Uma sabia da existência da outra...
O ciúme destruía seu corpo frágil...
Fazia com que uma apagasse a lembrança da outra...
E a mim restava o esquecimento dos momentos que juntos passávamos.
Fui teu remédio e teu veneno...
Até que deixei de ser algo a vocês duas.
Vivemos além à beira do precipício, vivemos à linha da borda.
Tínhamos todas as qualidades e todos os defeitos;
Todos os anjos e todos os demônios;
Todas as coragens e todos os medos;
Tudo tivemos e tudo perdemos.
Tenho o coração trincado desde o dia que,
Numa mentira que nós sabíamos não ser a verdade,
Disse-te que o nosso engano teria de chegar ao fim...
E que a ti só caberia voltar ao lugar onde vocês já haviam vivido.
Peço aos céus que vocês tenham a Paz, pois a mim coube os despojos e as saudades.



quarta-feira, 6 de maio de 2020

Paralelas



Retas que buscam o infinito, ou até que o espaço permita existir.

Juntas e, ao mesmo tempo, distantes.

Juntas, pois, seguem lado a lado;

Distantes, por nunca se encontrarem.

Assim somos nós.

Buscando o infinito, que o espaço nos permite.

Juntos e, ao mesmo tempo, distantes.

Juntos, pois, seguimos lado a lado;

Distantes, pois, não nos encontramos.

Separados pela distância que nos une;

Unidos pela direção que nos guia.

Em que ponto chegaremos?

Dependemos da mão que nos rabisca...

Mas uma certeza tenho:

Que no fim não há encontro, apenas distância...

Distância que nos separa... Distância que é  a vida.