Ontem
Senhores e Senhoras, um Reino onde não há Desafinação.
Ele fica tão, mas tão distante quanto o espaço que há entre
seus olhos.
Sim, seus olhos! Olhos que manteve fechados para o que lá
ocorreu.
Mas nada fora do normal aconteceu entre os muros desse
reino.
Criou-se uma Monarquia com sobrenomes curtos, pomposos e com
poucas vogais... Sobrenomes que ao serem pronunciados, entre ranger de dentes,
ouvia-se junto o choro e o estalar do chicote. Erguidos pelo suor de corpos que
em nada puderam aproveitar esse lugar.
Escritos não com
tinta, mas com o sangue daqueles que tinham as costas escuras, mouras ao
natural ou pelo Sol que as castigava, riscadas pelas chibatas.
Reino esse que deverá
ser herança para a prole dos Senhores... Para aqueles que dividem os banquetes,
os prostíbulos e a ganância. Para aqueles que são e serão amamentados pelas
amas secas, cuidados pelas mucamas que lhe servirão tantos nos berços como nas
camas.
Hoje
Senhores e Senhoras, um Reino onde não há Desafinação.
Ele fica tão, mas tão distante quanto o espaço que há entre
seus olhos.
Sim, seus olhos! Olhos que manténs fechados para o que lá
ocorre.
Mas nada fora do normal acontece entre os muros desse reino.
Reino esse povoado de Príncipes e Princesas, que herdarão as
sombras que existem numa terra sem nada e iluminada ao Sol de meio dia. Reis e
Rainhas cujas Coroas são sem brilho, foscas pelo tempo que passou.
Tempo este que não aceitam que passou, pois, esperam pela
volta de quem não ficou de vir. Reino esse onde os nobres, cujo vil metal
definhou pela imperícia deles mesmos, ainda esperam pela volta das vacas
gordas.
Sentem-se insultados pelo fato das suas vacas terem perdido
um pouco de gordura e as dos periféricos terem saído do estado de desnutrição e
migrado para a magreza. Onde suas mucamas não tem o direito ao Sol que toca
esse reino... E tão pouco as águas da fonte da Eterna Hipocrisia que os
refresca.
Onde seus servos são escravos perpétuos, que não sabem fazer
nada diferente do que esperar pela Lei do Sexagenário e dessa forma serem
libertos fisicamente do grilhão moral que os oprime.
Amanhã
Senhores e Senhoras, um Reino onde não há Desafinação.
Ele fica tão, mas tão distante quanto o espaço que há entre
seus olhos.
Sim, seus olhos! Olhos que manterás fechados para o que lá
ocorre.
Mas nada fora do normal acontecerá entre os muros desse
reino.
Reino esse que será povoado pelos que nada tem e desconhecem
o que passou. Que seus antepassados, assim como os Judeus, permaneceram quarenta
anos nesse deserto em busca da Terra Prometida. Antepassados que já deveriam
estar livres, mas escolheram viver prisioneiros desse lugar.
Esses que agora vão habitar serão vistos como uma Casta
inferior por aqueles que têm em suas veias o sangue do passado. Sangue esse que
já perdeu o azul da nobreza e está tão vermelho quanto o nosso.
Esses que habitarão irão contar, com escárnio e deboche, que
aquelas que lhe deram o peito eram as mucamas, que nada podiam, e que a eles
coube deliciar-se com as águas da fonte
da Eterna Hipocrisia que, outrora refrescou a todos que viveram no Reino onde
não há a desafinação, terra banhada pelo Ego da Monarquia falida.