quarta-feira, 26 de junho de 2019

Lunático



Eu já fui Céu estrelado.
Muitos brilhos que, com o nascer do Sol, sumiam...
Hoje sou Céu de Verão.
Que espera ansiosamente que a Lua apareça.
Mal sabia que, nas noites de Verão, ela tarda a aparecer...
Mas no tempo certo Ela vem.

A noite escura não faz com que o temor tome conta de mim...
Mas por favor, não demores a chegar.
Teu brilho me mostra o caminho a seguir.
Tua presença provoca devaneios...
O caminho que tua Luz mostra me desorienta...
Mas talvez esse seja o rumo a seguir.

O que ouvimos é o Silêncio...
Eu falo de Silêncios que poucos conseguem ouvir.
Corro para o Ontem, pensando estar avançando...
Mas apenas volto ao hoje, pois amanhã ainda é igual à Ontem.
E cá estou... As horas passam e Eu apenas observo...

A noite termina, mas Você ainda insiste em estar no Céu...
Ainda insiste em estar nos meus pensamentos...
Ainda insiste em estar dentro do meu Coração.





terça-feira, 18 de junho de 2019

Histórias do Reino onde não há Desafinação




Ontem

Senhores e Senhoras, um Reino onde não há Desafinação.
Ele fica tão, mas tão distante quanto o espaço que há entre seus olhos.
Sim, seus olhos! Olhos que manteve fechados para o que lá ocorreu.
Mas nada fora do normal aconteceu entre os muros desse reino.

Criou-se uma Monarquia com sobrenomes curtos, pomposos e com poucas vogais... Sobrenomes que ao serem pronunciados, entre ranger de dentes, ouvia-se junto o choro e o estalar do chicote. Erguidos pelo suor de corpos que em nada puderam aproveitar esse lugar.

Escritos não com tinta, mas com o sangue daqueles que tinham as costas escuras, mouras ao natural ou pelo Sol que as castigava, riscadas pelas chibatas.
Reino esse que deverá ser herança para a prole dos Senhores... Para aqueles que dividem os banquetes, os prostíbulos e a ganância. Para aqueles que são e serão amamentados pelas amas secas, cuidados pelas mucamas que lhe servirão tantos nos berços como nas camas.


Hoje

Senhores e Senhoras, um Reino onde não há Desafinação.
Ele fica tão, mas tão distante quanto o espaço que há entre seus olhos.
Sim, seus olhos! Olhos que manténs fechados para o que lá ocorre.
Mas nada fora do normal acontece entre os muros desse reino.

Reino esse povoado de Príncipes e Princesas, que herdarão as sombras que existem numa terra sem nada e iluminada ao Sol de meio dia. Reis e Rainhas cujas Coroas são sem brilho, foscas pelo tempo que passou.

Tempo este que não aceitam que passou, pois, esperam pela volta de quem não ficou de vir. Reino esse onde os nobres, cujo vil metal definhou pela imperícia deles mesmos, ainda esperam pela volta das vacas gordas.

Sentem-se insultados pelo fato das suas vacas terem perdido um pouco de gordura e as dos periféricos terem saído do estado de desnutrição e migrado para a magreza. Onde suas mucamas não tem o direito ao Sol que toca esse reino... E tão pouco as águas da fonte da Eterna Hipocrisia que os refresca.

Onde seus servos são escravos perpétuos, que não sabem fazer nada diferente do que esperar pela Lei do Sexagenário e dessa forma serem libertos fisicamente do grilhão moral que os oprime.


Amanhã

Senhores e Senhoras, um Reino onde não há Desafinação.
Ele fica tão, mas tão distante quanto o espaço que há entre seus olhos.
Sim, seus olhos! Olhos que manterás fechados para o que lá ocorre.
Mas nada fora do normal acontecerá entre os muros desse reino.

Reino esse que será povoado pelos que nada tem e desconhecem o que passou. Que seus antepassados, assim como os Judeus, permaneceram quarenta anos nesse deserto em busca da Terra Prometida. Antepassados que já deveriam estar livres, mas escolheram viver prisioneiros desse lugar.

Esses que agora vão habitar serão vistos como uma Casta inferior por aqueles que têm em suas veias o sangue do passado. Sangue esse que já perdeu o azul da nobreza e está tão vermelho quanto o nosso.

Esses que habitarão irão contar, com escárnio e deboche, que aquelas que lhe deram o peito eram as mucamas, que nada podiam, e que a eles coube  deliciar-se com as águas da fonte da Eterna Hipocrisia que, outrora refrescou a todos que viveram no Reino onde não há a desafinação, terra banhada pelo Ego da Monarquia falida.




segunda-feira, 3 de junho de 2019

Sei lá, Paz



Mas a lembrança da tua voz passa e fica...

Mas a lembrança da tua voz me pacifica...

Lá fora, o som da chuva...


Aqui dentro, retumba o silêncio...


Palavras disfarçadas em silêncios...


Acentuadas pelo tempo que passou...

Borradas pelas lágrimas de mágoa e tristeza...

Ditas, malditas, bem ditas...

Na tentativa vã de esquecê-las, são entoadas como mantra.



Mas a lembrança da tua voz passa e fica...

Mas a lembrança da tua voz me pacifica...

Fecho meus olhos e, como num delírio febril,

Sinto o calor do teu corpo,

O perfume da tua pele,

O toque da tua mão na minha

E o sussurro de tua boca perguntando:

Onde estive esse tempo todo.



Mas a lembrança da tua voz passa e fica...

Mas a lembrança da tua voz me pacifica...


Abro meus olhos... Apenas eu.

Não há a presença nem da Solidão

Apenas eu. Algo que já se tornou habitual...

Acredito que a Paz, tão buscada,

Não será encontrada numa bandeira,

Mas certamente no aconchego de teus lençóis,

De teus braços, teus lábios... Em teu sorriso apertado.



Mas a lembrança da tua voz passa e fica...

Mas a lembrança da tua voz me pacifica...